QUARTO BILHETE DE NOVAS: «Os Papéis Perdidos de Catatau Vincennes»

À semelhança do que apregoava, há uns quantos anos, a publicidade de certa bebida espirituosa, que o vulgo sem rebuço adoptou, vem de longe, nas Letras portuguesas, o registo da mangalhice. É o caso, entre tantos, das medievais cantigas de escárnio e maldizer, como esta, de Fernando Esquio, trovador galego, supõe-se que de família tenente, com diatribes assinaladas na transição do século XIII para o século XIV e que suplemento cultural algum, que já os não há, hoje acederia a publicar, receoso do mais vil opróbrio:

 

A um frade dizem escaralhado,

e faz pecado quem lho vai dizer,

ca, pois el sabe arreitar de foder,

cuid’eu que gaj’é de piss’arreitado;

e pois emprenha estas com que jaz

e faze filhos e filhas assaz,

ante lhe dig’eu bem encaralhado.

 

Escaralhado nunca eu diria,

Mais que traje ante caralho arreite,

ao que tantas molheres de leite

tem, ca lhe parirom três em um dia,

e outras muitas prenhadas que tem;

e atal frade cuid’eu que mui bem

encaralhado per esto seria.

 

Escaralhado nom pode seer

o que tantas filhas fez em Marinha

e que tem ora outra pastorinha

prenhe, que ora quer encaecer,

e outras muitas molheres que fode;

e atal frade bem cuid’eu que pode

encaralhado per esto seer.

 

Recalcitrante e secular mangalhice a que nem Junqueiro se esquivou, conforme encontrei numa ficha registada neste precioso endereço que amiúde consulto a favor da minha instrução. Teve o autor da ficha para a qual remeto os sempre interessados leitores, a gentileza de responder a um comentário que submeti ao seu juízo, elucidando-me, nesta sua outra ficha, que o nosso quase milenar País estaria «preparado para tudo» quando lhe referi, abusivamente, reconheço, a publicação iminente de Os papéis Perdidos de Catatau Vincennes.

 

É essa, pois, a temerosa razão deste Quarto Bilhete de Novas: circula no complexo meio literário e crítico português a assustadora notícia do iminente lançamento de Os Papéis Perdidos de Catatau Vincennes. A expectativa é mais do que justificada, pois nem o suborno – afiança-me um reconhecido crítico da exigente «escola francesa» da Capital, e com acesso privilegiado a tais ocultos e ínvios bastidores da intelectualidade pátria – conseguiu libertar um papel que fosse desses «papéis perdidos». É assim natural um inequívoco mal de vivre que caracteriza, por estes dias, a intelectualidade literária e crítica portuguesa. Pois ninguém sabe e muitos temem. Eu mesmo me interrogo, com alguma dúvida mas sem método, se o próprio Catatau Vincennes, de longa data atentíssimo à efervescência intelectual portuguesa, estará ao corrente da borrasca que se aproxima, sem piedade, das Letras portuguesas. E na verdade, não se afigura possível afirmar, fora da sombra da dúvida, agora, sim, metódica, se o País está – como conclui o prestigiado Autor das fichas que acima menciono – preparado «para tudo». Com efeito, em relação a esta dolorosa quase-constatação de o País estar «preparado para tudo», tenho as minhas dúvidas, pois ainda que o digamos, qual pelejador antes da inevitável e intrépida batalha, não o asseguramos no íntimo, quando baixamos à sentina e consentimos nas mais periclitantes divagações sobre o nosso destino colectivo. A iminente libertação dos prelos de Os Papéis Perdido de Catatau Vincennes a todos faz temer que semelhantes mangalhices lá se encontrem também, pois é sabido como o eminente pensador rejeita com toda a veemência a actual categoria da «pós-verdade» e é um desmesurado cultor da palavra, ainda que não ceda, pelo menos em público, à embriaguez do vernáculo. Em todo o caso, nada nos garante, nestes «papéis perdidos», que o próprio Catatau Vincennes não tenha soçobrado à mangalhice literária – com justificado precedente, bem entendido – em alguma das suas elucubrações de sentido etílico, das quais era, e suspeito com fundamento continuar a ser, dolente adepto, a favor, claro está, do superior interesse das Letras, e saberá quem lhe vai publicar os «papéis perdidos», se igualmente da Arte. Confiemos que Catatau Vincennes restringiu o seu agudo génio criador às Letras. Nada mais nos resta, assim, e falhado, na Capital, o suborno a que me referi, senão esperar, com férrea ansiedade, a iminente chegada, aos templos comerciais do Saber, de  Os Papéis Perdidos de Catatau Vincennes. Em todo o caso, creio bem rematar este bilhete, dizendo que de passos perdidos está de há muito feita a dor nacional.

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Fotografia: Contador indo-português do século XVII, em registo do Autor durante visita, não guiada, ao Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Défense de réproduction.

 

TERCEIRO BILHETE DE NOVAS: «Esquiços Biográficos»

Quem instaura um vazadouro, procede a vazamentos. É pois o que faço, dando utilidade a tal instauração, orientado sempre pelo crivo da impiedosa exigência de não defraudar, pelo menos disso tendo a consciência – o eu autobiográfico – as elevadas expectativas dos interessados leitores que me alvejam com o seu interesse sobre os conteúdos dos vazamentos a que procedo neste vazadouro literário. Uma pessoa que não saiba ser caixeiro, claro está que não abre loja, mas abrindo-a, não pode ser um bruto. Verificamos todos, nestes tempos de espantosa incerteza, um quase insano estado do Mundo capaz de conduzir Alexis de Tocqueville ao precipício da decisão suicida. É uma inconsequente boutade, bem o sei, e por isso me penitencio, mas o espírito, ainda que arreigado à intransigente e castigadora irreversibilidade da História, cede por vezes a estas pueris hipóteses académicas. On y soit qui mal y pense, mas, em todo o caso, «quem fala demais dá os bons dias a cavalos».

 

Tomei a decisão – o tempo dirá se imprudente – de me aliviar, momentaneamente, das pesadas responsabilidades da pena e, porque não dizê-lo com franqueza, também da ansiedade que nestes tempos impende sobre o Mundo, ensaiando uns quantos Esquiços Biográficos de alguns eminentes amigos que me têm desinteressadamente alvejado com a sua distinta amizade e, ouso escrevê-lo, a sua benevolente consideração. Despretensiosos esquisses biographiques – cedo, é verdade – que não olvidam do meu espírito a serena máxima de «cada macaco no seu galho», pois não pretendo, nestes breves escritos fasciculados, alçar-me inconsequentemente à altura dos atingidos pelo meu grato tributo. E justo é que diga, por outro lado, que retiro das ambições da posteridade os apontamentos biográficos que estou prestes a redigir, pois a própria instauração de um vazadouro particular tal cupidez impede. Não cometerei a heresia de afirmar que deveríamos persignar-nos perante o acertado juízo de Shakespeare na fala de Próspero, mas, pelo menos, recolhermo-nos à consignação: «We are such stuff / As dreams are made on, and our little life / Is rounded with a sleep.» Em todo o caso, verdade seja dita sem falsas modéstias, estou como Prometeu desafiador: «Não trocaria a minha desgraça pela tua servidão.» Os Gregos Antigos chegaram «lá» primeiro.

 

Assim, iniciarei estes referidos biographical short writtings, pela figura eminente de Catatau Vincennes, que recusa, com veemência, o prestígio do epíteto de pensador, alegando, bastas vezes, «Somos todos pensadores, ou o meu amigo considera-se uma besta?», e foi, durante alguns anos, um doloroso exilado da nossa atávica pequenez. Resiste, com a espantosa lucidez dos seus fusíveis, e vai fazer sair dos prelos Prometo Acertar: o Devir Fenomenológico dos Algoritmos.

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Pintura: Eleutério Alves, artista plástico e performer, sem título, acrílico e roller ball pen sobre papel, colecção muito particular do Autor, défense de reproduction.

SEGUNDO BILHETE DE NOVAS: «O Crime da Rua das Montras»

A tresloucada tentação do romance azamboa qualquer servidor das letras. O eminente Catatau Vincennes diz, e até com alguma graça, reconheçamo-lo, «O romance, meu amigo, está falido, mas a administração não se demite e pior, ninguém tem tomates para a demitir e, pior ainda, continuam a permitir que publique! Até a premeiam, veja a cloaca onde estamos!» Claro está que têm, muitos, opinião contrária a esta. Horácio do Galho, por exemplo, sentencia: «Isto o que é preciso é continuar a bater a bola.» Trata-se da escanzelada teoria «meia-bola e força», ou «para a frente é que é Lisboa». O escultor Libório de Matos resume toda a teoria da comunicação e, por arrasto, (hesitei, por momentos, em escrever «arrastão»…), a inebriante loucura de bestsellers que tanto papel gasta em cintas para os livros e para cobrir os detectores na entrada das livrarias, a um único imperativo categórico: «Um putedo!» Opiniões, todos as têm. (Naturalmente estará o atento leitor a concluir o quase-adágio popular que equipara as opiniões, mas não conte que eu o enuncie, pois as versões divergem e, para além dessas imprecisões, ainda que este seja um vazadouro literário, não é uma sentina.)

Serve este bilhete para dizer aos distintos leitores deste vazadouro literário que decidi cometer a loucura do romance. Uma ou outra inconfidência, perdida não sei onde, fez já tocar o meu telefone, sinal da atenção das editoras ao «mercado» potencial. Recordando o imperativo categórico do escultor Libório de Matos, não cederei ao fornicoque proveniente do prelo e quedo-me por este demonífugo vazadouro particular em vez de somar às chagas literárias existentes nova maleita perturbadora. Em todo o caso, não queria deixar de partilhar com os distintos leitores o título do romance que neste vazadouro publicarei em capítulos ou, como aqui há atrasado se dizia, em fascículos. É pois o título de tal cometimento O Crime da Rua das Montras. Expectante do interesse dos estimados leitores, subscrevo-me com os maiores protestos de estima e gratidão, deixando uma misteriosa fotografia dessa Rua das Montras onde em certa madrugada, depois da apresentação de uma candidatura presidencial no decorrer de um jantar no restaurante A Vara, é encontrado o corpo hirto e frio do connoisseur de arte e professor Ovídio Ramalhosa, pela poetisa e cantora lírica Marcolina Maria, sendo chamado de imediato o chief inspector Bala de Prata, que outro não é senão Aldaír Cabral, «um português com muitos anos de Brasil», que está também no encalço da irmã esquecida de Jodie Foster, enquanto colabora, como expert em segurança e «comunicação para a imprensa», na preparação da visita do Papa Calisto XXI a Caldas da Rainha. E enfim, capitulei, perante a tentação de dar aos estimados leitores um «lamiré» do literário cometimento.

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BILHETE DE NOVAS

Serve este bilhete de novas para apresentar aos estimados e atentos leitores deste vazadouro literário particular, os meus mais veementes protestos de sincera simpatia e de Bom Ano Novo, mesmo que este último protesto os alveje já fora dos contornos cronológicos tradicionais da época festiva, cujas respectivas iluminações públicas ainda não foram retiradas por quem as alçou, numa própria iniciativa, ou a mando categórico de outrem, que só a benevolência concedida pelos cidadãos ao Poder incita a considerar que este se preocupa com a saúde mental pública.

Transpus a quadra festiva entre amigos, cedendo sem relutância, nem a da cerimónia, ao convite da minha amiga Marcolina Maria, poetisa e cantora lírica, cujo percurso artístico, dentro e fora de portas, da maior parte conhecido e aplaudido, também dentro e fora de portas, justifica a reedição da sua obra literária, canora e musical, devidamente enquadrada pela iniciativa cultural de uma homenagem nacional. Ecoam zumbidos de um reconhecimento presidencial na eminência do próximo 10 de Junho agregador. A minha culta e sensível amiga teve a gentileza de convidar para o conforto da sua residência, questiono-me se, em alguns dos casos em apreço, tendo sido incapaz de resistir à «tontura do ódio» da obrigação, o pianista Paiva Cacete, o maestro Rocha Castor, o jornalista e escritor Gomes Canasteu (está a escrever-lhe a biografia), alguns amigos de antigas e insignes intervenções culturais, dentro e fora de portas – do Alcochete Wind Ensemble e do Coro dos Metalúrgicos de CoinaElisete Campanhã, analista clínica e crítica literária, Fernandinha Botafogo, psicóloga de organizações criminosas, Teresinha Fragonard, proprietária da célebre Confeitaria Bilha, riquíssima, a Bruna e o Zé Tó, entre outros comensais, que a seu devido tempo referirei, em vazamento mais profícuo e prolongado. Noblesse oblige, ouviu-se o disco mais aplaudido desta querida amiga, dentro e fora de portas, Flatus Cantorum e recusou-se, com veemência, as melopeias próprias da quadra mais fraternal do ano.

 

E estive, até há poucos dias, depois das agradáveis festas que acima refiro, num Congresso Cultural que teve lugar num simpático e moderníssimo Centro Multiusos em Preciosas do Alto Vouga. O Congresso – no qual acedi a participar com bastante relutância, dado que possuo vazadouro particular – foi atingido com a presença de diversos e conceituados notáveis, tanto dentro como fora de portas. Impede-me por agora o carácter sucinto deste bilhete noticioso alguma expansão descritiva, mas sempre posso elucidar que estiveram presentes, sob a rigorosa coordenação de Catatau Vincennes – que a todos recebeu, numa antológica Sessão Inaugural que incluiu projecção de diapositivos – Horácio do Galho, Vera Vareta, Iria da Lástima, Verónica Açucena, Libório de Matos, Nunes Cachaço, Gastão Valadares, e outros que a concisão deste apontamento me impede de mencionar, mas que em vazamento subsequente mencionarei. E houve fados, por ocasião do jantar de encerramento dos trabalhos, não sem alguns incidentes progressistas que o amor às letras e ao vinho justificou para animação de todos, com a fadista Maria Valisa (a boca fechada assinalou que regiamente paga) e outros sublimadores (a troco de jantar, boa garrafeira e possibilidade de venda de cassetes e discos compactos, afirmou-o também a boca fechada) desta reconhecida toada nacional, assim como outras expressões musicais, como foi o caso, bastante aplaudido, do Jazz Ensemble de Odalisca Papaia.

 

Dos conteúdos do actual bilhete darei notícia próxima, assim continue a merecer a atenção de quantos encontram neste vazadouro literário particular, alguma matéria de interesse para as suas legítimas elucubrações intelectuais.

 

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Bilhetes do vazadouro íntimo, número 1: «O Sol já raiou! O Sol já raiou! / A Natureza em flor!»

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Nos tempos disciplinados – sob a aura austera e castigadora onde hoje ainda, para os incautos, se «joga o essencial» – da minha colegial e católica infância, em dias do ofício litúrgico de que não se podia fugir, pois nunca ocorria a horas que permitissem saltar, longe do pedaço de mangueira do olímpico energúmeno da Portaria, o gradeamento e correr para a praia, toda a criançada aproveitava uma certa canção para manifestar, sem o freio da conveniência e com a mais veemente alegria, a sua oposição à obrigatoriedade de assistir à missa. Passámos todos a suportar, na íntima ara do sacrifício recompensado sem expectativa de tempo aceitável nem lugar que se adivinhasse plausível, a exigência do ofício divino graças (que palavra) a essa canção que rebentava com toda a solenidade da ocasião e, por inevitável arrasto (que palavra, também) com toda a milenar e indulgente paciência dos padres, que cansavam os braços e a obesidade em sinais contidos para que cantássemos nos decibéis adequados à divindade. Realmente, como diz o poeta, «a canção [era] uma arma». Assim entrava a miudagem para o templo, perfilada mas pérfida, ansiosa pela página do pequeno livro onde vinha registada a letra da canção libertadora e vingativa. Não me recordo do nome dessa benfazeja canção, que instaurava no meio do mofo, com a força da vida a começar, os girassóis libertadores de um recreio único onde não se passeava o Barriga de Mijo – cruéis são os petizes – mas ecoa ainda no meu espírito a voz uníssona da criançada quando chegava o refrain da rebelião contra o sistema das batinas pretas: «O Sol já raiou! O Sol já raiou! / A Natureza em flor!». A partir daqui, a nossa espiritualidade resumia-se ao apetite para o almoço, uma incógnita para quem «ia à chapa» – explicarei aos interessados leitores, em futuro bilhete íntimo, o que significava esta expressão – e uma certeza devastadora para quem o trazia de casa. Portanto, não sejam tolhidos por medo de qualquer espécie quando decidirem cantar nos decibéis proporcionais ao vosso estado de espírito, porque o mais que pode acontecer é a operadora multimédia da vossa distinta eleição suspender o serviço, ou tão-só, verem-se remetidos para a categoria, hoje nada infame de malucos, pela inveja alheia.

«O AMOR ANDA NO AR» ou ENSAIO DE HISTÓRIA POLÍTICA DA PROXIMIDADE COMERCIAL

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Em 1979, no dia 6 de Fevereiro, o F.M.I. (Fundo Monetário Internacional) chegou a Portugal para negociar um acordo stand by e quase no final do mês a cantora Manuela Bravo venceu, no palco do demolido Teatro Monumental, em Lisboa, o Festival da Canção com a vibrante melopeia que ainda hoje ecoa no espírito colectivo, Sobe, Sobe, Balão Sobe, e no dia 4 de Maio, Margaret Thatcher tornou-se primeira-ministra do Reino Unido e, em Dezembro, chegou o Natal.

Em localização geográfica e numa habitação sem pertinência para este vazamento literário, pelas oito horas da noite, pantalha televisiva a exibir, a preto e branco, o Telejornal, uma família senta-se à mesa da sala para a refeição do jantar e a campainha do telefone troa no corredor. O homem da casa reclama, «O telefone! Tinha que ser o telefone, e quando é o telefone é a bandeira esfarrapada da vizinha, e quando não é a vizinha, é a tua mãe! Mas porque é que as pessoas telefonam sempre à hora do comer? Não se pode comer em sossego nesta casa? A víbora da tua amiga foi para a terra, deve ser a tua mãe, de çarteza!» A mulher levanta-se da mesa, furiosa, capa o marido com os olhos mesmo sob a reprodução de A Última Ceia, de autor desconhecido mas artista com alma, pendurada na parede, e antes de chegar à porta da sala, crava a bandarilha, «Não, não é a minha mãe! E ergue as mãozinhas ao céu quando falas nela!» O telefone continua a chamar mas a mulher ainda regressa ao vão da porta da sala, «Não é a minha mãe porque ela está cá em casa, ou ainda não destes por isso?» Já no corredor, com a mão sobre o auscultador, mas a cabeça a ferver de indignação doméstica, a mulher reincide uma segunda vez na fronteira da sala, «Só tenho pena é que a minha mãe ainda não tenha vindo de passear o Benfica, que quem ia pagar o bacalhau para a consoada eras tu!» Outra vez no corredor, a campainha do telefone sobrevive, deve ser ligação de pessoa determinada em falar, a coisa faz sangue, «Que coisa de homem mais estúpido! Bruto que nem uma porta!» Quando a mulher levanta o auscultador e o som começa a ser captado, embate violenta no aparador, no telefone e na mulher, a derradeira mensagem que invectiva, sem pudor, «Atende o telefone, caralho!»

– Estou sim, quem fala?

– Boa noite, D. Alzira, como está a senhora? Esposo, filhos, mãezinha, tudo de saúde, assim espero… A sua mãezinha está consigo para o Natal… Já sei que a Vanessa e o Marco Paulo foram seleccionados para o Presépio Vivo…

– Senhor Albertino… Íamos agora mesmo começar a jantar, só não tínhamos começado porque estávamos à espera da minha mãe chegar de ir passear o Benfica… De  maneira que…

– E lindo que é o cão que vocês têm! Olhe, D. Alzira, o motivo porque eu…

– Mas oh senhor Albertino, está a ligar da sede recreativa?

– Não, D. Alzira! É o disco daquele conjunto, os Féveres, Onde estão teus olhos negros

– Que coisa tão estranha, oh senhor Albertino! Mas como disse, nós íamos agora mesmo…

«Já estamos todos a comer!» Da sala, a gritar. «Vai mas é levar no cu!». Da cabeça, da mulher.

– Sabe o que é, D. Alzira? São as novas técnicas da publicidade, sabe, uma atenção para lembrar, compreende… Olhe D. Alzira: amanhã vou ter o bacalhau a um preço muito bom, vem directamente dos bacalhoeiros para aqui, nem na Beatriz da Ponte, a D. Alzira sabe que ela é uma exploradora do pior, só não lhe mete as unhas nos bolsos porque a lei não consente, também estou a fazer abatimentos na couve, até quarta-feira que vem, veja, a batata praticamente vai ser dada, cinquenta sacas que vou receber amanhã, pois é, o…

«Desliga-me essa merda mas é!» Da sala. «Vai pentear macacos, cabrão.» Da cabeça.

– … o feijão a granel, todo o feijão, D. Alzira, todo o feijão, baratíssimo, a batata doce, vem na quinta, não vai encontrar pelo mesmo preço noutro lado, garanto-lhe, e doçaria da mais fina, até me vão chegar chocolates do estrangeiro, imagine, caramelos de Badajoz mas dos bons, entenda, o sabão Clarim, levando dois, baixa para dois e quinhentos, e deixe-me dizer-lhe que pode passar com as crianças amanhã pela mercearia que eu ofereço uma Laranjina C a cada uma, só pela atenção que a D. Alzira teve neste telefonema, para além de um par de meias CD, quem ganha é você, lá diz o anúncio, e…

«Tem que se desligar aquela merda à hora do comer… Estou farto de dizer isto. Algum dia calha, não não calha! Uma pessoa nem se consegue concentrar na porra do noticiário…» Da sala, tom de voz um pouco acima do coloquial. «Como se tu percebesses alguma coisa das notícias, cóninhas de merda.»

«Oh filha, vem comer, olha que arrefece tudo!» Da sala, a mãe. «Esta agora, também, a chatear-me os cornos.» Da cabeça.

– Olhe senhor Albertino, a sua mãezinha não lhe fez uma coisa para o senhor se entreter quando não tem mais nada para fazer? Estamos a jantar, senhor Albertino, porra… Vá mas é bardamerda mais à sua publicidade nova! E fique com esta, meta as Laranjinas C no cu e assoe-se às meias e pode ficar descansado que só por me ter chateado os cornos, fora o meu homem que por causa do seu telefonema já me pôs a cabeça em água, vou gastar na Beatriz da Ponte! Passe bem! Chupista, tens o cu cheio de dinheiro!

Do outro lado da linha, a mulher ainda conseguiu ouvir «Que grande vaca!», desbafo imprudente embrulhado com o Recordar é Viver na voz do artista Vítor Espadinha.

Durante o ano de 2016 aconteceu muita coisa que a inclusão temporal ainda não permite escolher com a devida acuidade e o imprescindível sentido histórico, pelo que a prudência se aconselha, e em Dezembro Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos da América e chegou o Natal.

Em localização geográfica e numa habitação sem pertinência para este vazamento literário, pelas oito horas da noite, plasma televisivo de alta definição e a cores ligado, uma família senta-se à mesa da sala para interagir com telemóveis e tablets enquanto come. Sinais de mensagens soam quase ao mesmo tempo em todos os aparelhos. «So 9Dez 25% em todo Peixe selvagem fresco, Bacalhau especial, 6,99E/Kg e 50% em todas as as couves, consulte mais aqui [«link»]. E dia 10Dez há mais.»

– Amor, amanhã temos que sair mais cedo de manhã e vens a casa pôr as coisas antes de ires para o emprego. Vão comendo que eu vou já pôr o «trólei» ao pé da porta, procurar o cartão e arranjar os sacos. Amor, depois de dares a papinha à bebé não te esqueças das palmadinhas para ela arrotar, certifica-te que o Martim come os legumes todos, se entretanto acabarem de jantar punham tudo em cima da bancada, amor hoje lavas tu a louça, a mamã não passa por cá amanhã, só sexta-feira para trazer o cheque para a playstation do Martim. Oh pá, não sei onde pus a porcaria do cartão, viste-o amor? Não o posso ter perdido! Vai tudo para o cartão, amor!

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Fotografia complementar deste vazamento literário: brinquedo Escorrega no esgoto com massa viscosa, superfície comercial, Dezembro de 2014.

OITENTA E SEIS BILHÕES DE NEURÓNIOS, ESTIMATIVA

Em meados de Dezembro nos achamos, iluminados por cones electrificados que não são árvores (ainda que por elas pudessem passar, ou pelo menos sugeri-las, assim o homo sapiens sapiens fizesse a devida justiça à funcionalidade do conteúdo cinzento do seu crânio), o frio domina a temperatura do ar e dificulta a fluidez do sangue, sobretudo no que concerne à irrigação das extremidades. Não sendo, de acordo com a nossa benfazeja localização geográfica, um problema extremo, pode em todo o caso ser um problema. O solstício de Inverno, que marca o início da dispendiosa estação natural com o mesmo nome, ocorre, com ressalva aproximativa, no dia 21 de Dezembro. O Inverno – com o frio, a chuva e a neve, mas também com a serra da Estrela e toda a espécie de materiais que permitam deslizar a uma velocidade aceitável sobre o gelo, desde um saco de plástico a um trenó de Hollywood – acentua a melancolia e a circunspecção que o Outono instalou com a derradeira força solar. Portanto, o solstício de Inverno acontece quando o Sol, visto da Terra, está à máxima distância do «equador celeste», ou seja, quando o Astro rei se encontra a 23,5º para o Norte ou para o Sul desta linha imaginária. Se não pode cair sobre a estrela central do sistema solar a que pertencemos a culpa da manifestação de pensamentos trôpegos, vigorando o frio, como vigora, é pois à queda da temperatura que pode, quem a isso se predispuser, imputar-se a culpa pelo uso dolente do encéfalo, a que vulgarmente chamamos cérebro, o principal órgão do sistema nervoso dos seres vertebrados e onde se calcula viverem – muitas vezes sob o opróbrio da vergonha – 86 bilhões de neurónios cada um deles disfrutando de 10.000 ou mais conexões sinápticas, tudo envolvido pelo líquido cefalorraquidiano e a «trabalhar» à razão de correntes eléctricas a cada milésimo de segundo. É de admirar, assim, como alguns homo sapiens sapiens instalados na gestão do Bem Comum não são acometidos por choques eléctricos ou, até, por curto-circuitos sempre que decidem conferir algum uso a esse órgão complexo e extenso responsável pelo pensamento lógico e pela capacidade comunicativa, da qual se destaca a linguagem. Mas não é assim, para mal das contas do Pecado Comum e do deve-e-haver da quase milenar Pátria que a certa egrégia mãe foi disputada. Consideram alguns homo sapiens sapiens, no intervalo decorrente entre o acto fundador de o cônjuge atirar com o empadão de carne para o forno ou para o micro-ondas e o chamar para a mesa, que a Pátria os reclama, quando a Pátria, se pudesse, lhes ofereceria um par de pantufas e diria tão-só «Anda, agora vai lá à tua vida, não fodas mais a República porque tens à tua frente um brilhante futuro cheio de prefácios, uma ou duas biografias, amanhadas por ti ou por outrem e, se tiveres sorte, consegues um bilhete que te coloque na fila para a latrina, quero dizer, para a “comentadologia” televisiva, independente ou por contra doutrem.» Mas não, descer não é com eles, e pagar a dívida também não. «Onde o primeiro intento he malícia, o derradeiro naõ será virtude». Deslocamento perceptivo da realidade, perigosidade pública, interdição mental.

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