Uma inédita ode juvenil do pensador Catatau Vincennes

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Decorreu ontem, na Fondation Franco-Portugaise La Funac, uma sessão cultural em homenagem ao inesgotável pensador Catatau Vincennes, organizada por sua filha Manga Vincennes, a qual prepara, para edição, não se sabe ainda se na Porco Editora ou na Martírio & Capim, Os Papéis Perdidos de Catatau Vincennes. Acedi, com bastante relutância, a participar, dado que possuo vazadouro particular, mas, enfim, não pude escusar-me ao simpático e inebriante convite com que fui pessoalmente alvejado pela gentil Manga Vincennes. Amiga dileta, Manga Vincennes concedeu-me a autorização necessária para aqui publicar uma ode inédita de seu mastodôntico pai, depois de o próprio ma ter facultado sob a égide destas significativas e afectuosas palavras: «Toma lá um inédito para a tua sentina literária e passa para cá cinquenta euros». Quis, naturalmente, coibir-me, dada a ocasião emérita e o prestígio dos presentes, de explicar ao meu Amigo, à semelhança de vezes anteriores, a diferença existente entre sentina e vazadouro, mas a isso me vi obrigado, graças à teimosia elucidante da poetisa Abília Calotes, infelizmente atenta à ocasião.

 

Do mundo foragidos

Do mundo foragidos, por ínvios trilhos e arvoredos,
Na solidão dos campos, renegados de conselhos,
Ledos corríamos, movidos só por húmidos segredos…
Na palha do gado copulávamos que nem coelhos…
Nossos semblantes, transpirados e vermelhos,
Irradiavam a felicidade dos amantes condenados!
Condenados, ah sim, perdidos também, mas fartados!

E soíamos depois do mundo fugir sem receio,
Tomar autocarros, cavalos ou carroça sem freio
Buscando na dissipada, triste linha do horizonte
Um país onde fôssemos, à vez, a água e a fonte;
E não estes dois renegados fugidos, a monte,
Como vulgares contrabandistas, infectos bandidos…
Fujamos, Amada, até do mundo sermos esquecidos!

 

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Jovem numa praia lendo e sublinhando um livro do pensador português Catatau Vincennes
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Um soneto inédito da poetisa e cantora lírica Marcolina Maria

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Foi com algum júbilo que recebi, por via de bilhete amigo, a notícia estonteante da edição da poesia completa da minha inebriante e quente amiga, a poetisa e cantora lírica Marcolina Maria, incontornável referência faroleira das Letras Portuguesas.
A poetisa e cantora lírica Marcolina Maria, natural de Preciosas do Alto Vouga, embarcou com os seus gentis pais para o Brasil em 1954, tendo-se a família instalado, depois de periclitantes e aventurosos ínterins, na pitoresca cidade de Abunã, no Estado da Rondónia, muito perto da fronteira com a Bolívia. Começaram seus pais por trabalhar no caminho-de-ferro que liga a capital do Estado, Porto Velho, a Abunã, e daí prossegue, entre frondosa vegetação, até Guajará-Mirim. Muito cedo, porém, os pais de Marcolina Maria descarrilaram vindo a abraçar uma outra actividade significativamente mais lucrativa, o contrabando violento. Enquanto o pai, Marcolino Tavares, contrabandeava na perigosa zona fronteiriça com a Bolívia, atascado em pântanos tropicais, a mãe, Ermelinda Casais, focou a sua actividade al longo da fronteira com o Estado do Amazonas. Em 1958 mudaram-se para S. João dos Patos, no Estado do Maranhão. Aqui, com mais oportunidades de trabalho, o pai de Marcolina Maria, conhecido como «o cangaceiro» reiniciou vida no assalto aos comboios enquanto a mãe, Ermelinda, «a rasgadora», trabalhou no combate às bactérias agrícolas utilizando as propriedades arrasadoras da sua flatulência natural. Aventurosa vida, em suma, que sei, por fontes bem localizadas no meio literário da capital, estar a ser escrita pelo jornalista Gomes Canasteu, amigo próximo da poetisa e cantora lírica, pelo que mais não adianto.

Dizia, portanto, que recebi por bilhete amigo, endereçado pelo incansável pensador Catatau Vincennes, a nova da edição a que acima aludo. Na referida nota, Catatau Vincennes subscreveu-se, pelos meios eléctricos hoje existentes, nestes sintomáticos termos: «Júlio, a maluca da Marcolina conseguiu convencer o bêbedo das Edições Portugal Hediondo a publicar-lhe toda a poesia, incluindo, imagina tu, a poesia inédita, a começar por aquela porcaria que ela editou quando estava no Canadá! Parece que aquela merda se vai chamar Minhas Palavras ao Vento, e em dois volumes. Já estás a adivinhar que a gaja vai organizar um jantar em casa dela e cravar-me a porra de um texto sobre o livro… Disseram-me, ainda, que o X. fala dela neste livro que publicou agora, não admira, isto é um putedo. E tu também me saíste um grande cabrão, vê lá se escreveste um artigo sobre os meus Papéis Perdidos!» Não esperam os leitores atentos e perscrutadores que eu revele, assim à tripa forra, quem é «X»… Impede-me o pudor, hélas! mas sobretudo a resiliente capacidade de sacrifício que me caracteriza – responsável, até, por alguns dolorosos e injustos equívocos com a matulona da parcela abaixo daquela que habito – que eu proceda a tal desocultação, pois coloco acima das contingências egocêntricas de todos, as Letras portuguesas!
De facto, a Edições Portugal Hediondo, com o apoio da Fundação Luso-Monegasca de Estupefacientes e Cultura, vai, pois, publicar em dois tomos a poesia completa da celebrada cantora lírica Marcolina Maria – dentro e fora de portas – e que inclui, para gáudio da cultura literária portuguesa, a reprodução fac-similada do livro que a insigne cantora e poetisa portuguesa publicou nos idos do decénio de Setenta no Canadá, quando lá se encontrava a viver (exilada, hélas!) e a trabalhar na indústria metalúrgica pesada. As suas tournées artísticas canadenses, realizadas com o cantor de intervenção Cipião Operário, também exilado naquele país, são ainda hoje lembradas com irrecusável saudade, quer por Portugueses, quer por naturais. Marcolina conheceu Cipião no meio metalúrgico pesado, pouco depois de chegar ao Canadá, proveniente do Brasil, na sequência do desgosto dilacerante que resultou do estranho e nunca confirmado desaparecimento do seu primeiro marido, o poeta Deodato Candeias, no decorrer de um congresso literário na Amazónia. Estes dois volumes terão, em príncipio, o mesmo título do primeiro livro de Marcolina Maria, Minhas Palavras ao Vento, e constituem a feliz oportunidade para a reimpressão de dois dos principais livros que escreveu, já em Portugal, para onde regressou depois de Abril de 1974: O Cacete e Furacão de Palavras, respectivamente publicados em 1976 e 1979. Para assinalar a ocasião, e antes de proceder ao vazamento do primeiro Esquiço Biográfico, justamente a aventurosa biografia desta querida Amiga e distinta Artista, procedo agora, com a autorização devida da própria Autora, ao vazamento de um angustiado soneto inédito que integrará o segundo volume da obra completa, dedicado a Inéditos e Rascunhos, em breve publicados pela conceituadíssima editora Portugal Hediondo. Resta-me acrescentar que este soneto inédito me foi remetido do Brasil, depois de ter sido declamado pela minha encantadora amiga aos microfones da Rádio Cachoeira, em São João dos Patos e que o reencontrei, há dias, a aconchegar um queijo da Serra amanteigado.

 

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Não voltes, ah não!

Desapiedado, bruto e cruel com’um vento rasgador me acusas,
Cravando em meu exangue peito a infame adaga da desconfiança!
Ah, souberas tu a dor que me aniquila e vence quando t’escusas
Ao vulcânico, fervente amor deste ar interior que triste não t’alcança!

Porque te afastas, dissimulado, indiferente até, porque me recusas tua boca,
Se tão belas loas cantaste à minha fremente e escaldante interioridade?
Castigas-me, sim, que eu sei… Mas ainda t’espero, chorosa e taralhoca
No mesmo jardim! Mas sê sincero – não tens de meus doces flatos saudade?

Poupa-me à tua falsa e impiedosa resposta, sim, pois não te guardaste
De me enlouquecer com palavras que o vento levou… És um traste…
E eu o sabia desde que o destino, em ti mudado, me bateu nos cornos…

Ah, mas sou eu agora que te invectivo, eu toda ferida e impiedosa,
E grito, doida de orgulho, na agonia atroz desta aragem pútrida, indecorosa,
Que não voltes, ah, não! Que não voltes a confundir-me os contornos!

 

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A Porta do Cavalo ou «Muito deve doer a torcedura da razão». Apresentação aos leitores

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Et voilà, on y va: LA PORTE DU CHEVAL! Clamorosa realidade – e tão portuguesa, não é demais dizê-lo! – é, desde antanho, a Porta do Cavalo; porta com efeito, mas também acção moral e, valha a verdade, tem na vida cada um a sua porta do cavalo. E pode afirmar-se, por doloroso conhecimento do Mundo, que pela porta do cavalo sempre entra ou sai alguém nas mais diversas e, quantas vezes, insuspeitadas ocasiões. Ademais, aplica o vulgo a tal expressão, a palavra cunha, ter uma cunha, meter uma cunha – da fila da padaria à cátedra, quando não à deputação nacional. É assim caso para de novo dizer, tendo em conta aquilo a que não pode chamar-se senão o chafurdanço geral, «Nunca digas “Por esta porta não passarei!”» Cale cada um bem fundo, pois, as portas do cavalo de sua vida, assim as tenha passado com ingenuidade, com malícia ou em resultado de alguma pueril destemperança. Todavia, sabemo-lo, amiúde grandes tubarões franqueiam as mais distintas portas do cavalo; não pense o excelso leitor que se está dando a rasgos surrealistas o humilde escrivão destas linhas – assim não é! Por outro lado, verdade seja dita, toda a passagem da porta do cavalo deveria carecer da maior puridade, pois não se quereria ver em praça pública tal pestilenta façanha; mas os tempos, em mudando, com ele mudam os costumes e de novas vestes se galanteia a rebaldaria, quando não a velhacaria! Entende-se portanto que à passagem da porta do cavalo se aplica uma forma pouco canónica de obtenção de certa benesse ou vantagem, de algo ou, até mesmo, hélas!, de numerário. Nos palácios de outrora – quando ainda as estradas, as ruas e as avenidas, até mesmo os boulevards, não se encontravam a uso de movimento motorizado – era comum existirem numerosas portas destinadas a funções diferentes; entravam uns pela porta da frente, entravam outros pela porta da criadagem. E se opulenta era a casa, forçoso teria uma porta de acesso às cavalariças; voilà, a porta do cavalo propriamente dita, transposta a qual se chegava à estrebaria, à caleche, à sege ou, em limitados casos, bem se vê, ao coche! E agora me ocorre, até, pois um pouco a despropósito mas não a título de «ter para os alfinetes», aquela tão popular cançoneta que o povo pelas ruas ainda hoje canta, com versos de Júlio Dantas (o martirizado do «Manifesto» do outro ordinário futurista, ah, sim!) e música de Frederico de Freitas, o Solidó dos Boleeiros, mais conhecido por Timpanas simplesmente: «Niza azul e bota alta / A reinar com toda a malta / É o rei das traquitanas / O Timpanas. / E o pinóia na boleia / De chapéu à Patuleia / Faz juntar o mulherio / No Rossio. / Quando levo as bailarinas / Do teatro ao Lumiar / Bailo eu e baila a sege / E as pilecas a bailar», etecetera. E por outro lado, não o esqueçamos, tem lugar a dita porta nas praças de touros, onde existem portas destinadas ao público, aos toureiros e aos cavalos. Claro está que faz a glória do toureiro sair em ombros dos moços da arena pela porta principal da Praça. Ora, por contraste, abandonar o orgíaco local, sem o aplauso dos aficionados, pela porta do cavalo significa, bem vê o atento leitor, sair por uma passagem de categoria inferior, quer dizer, desapercebidamente. O problema está, como todos os dias no-lo diz o Mundo, em que, malgrado a destemperança, ninguém quer sair pela porta do cavalo; todos se acham igualmente dignos, apesar da desigualdade das suas malfeitorias, de sair pela porta principal do ministério, da secretaria de Estado, da empresa, da barraca. Exigem-no, aliás! E depois de terem feito a Cachuca – vertiginosa dança espanhola a três tempos – e «pintado a manta» muito além das cores primárias…

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Instantâneo de uma das portas da Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa.

 

Dá o Globo habitado a quotidiana rotação e a translação anual que conhecemos e os nossos sentidos e a Ciência demonstram. História antiga sem princípio, que certos saibamos, nem fim que adivinhar possamos. Frequentes voltas dá também a Literatura quantas vezes assinalada pelo selo pendente do prefácio legitimador ou benfazejo, no eloquente gesto de algum dos deuses do Olimpo da Letras, o qual, não passeando propriamente pela brisa da tarde, com justa perspectiva indica o que deve ou não considerar-se na avassaladora actividade dos mais distintos prelos editoriais. E quando não os deuses eles mesmos, de tal função se investem ou são investidos, os sagrados escolhidos.

Acontece que escasseiam os vazadouros; verdade é que ninguém gosta de vazadouros e é por essa razão de decência e de higiene que aos monturos medievais fez a Revolução Industrial e o Urbanismo suceder os sistemas canalizados de esgotos. Preocupação antiga, todavia. A tão célebre e ancestral expressão «Lá vai água!» avisava o transeunte que despachasse o passo ou se abrigasse sob colunata ou passadiço se não quisesse ele mesmo verificar que o aviso correspondia a «Lá vai merda!».

Ora, não será decerto este particular vazadouro literário em fascículos – que apesar de tudo desemboca na cloaca comum das Letras – a sua mais proeminente chaga. Do espírito me seja afastada a mais ténue nebline de juízo próprio e, assim, abandonamos aos demais, o impiedoso crivo da exigência crítica, ou seja, a avaliação do quilate deste vazamento; mas havia, sim, uma urgência – a urgência de não sufocar no ímpeto tronante da perplexidade a clareza da demência geral (o receio abranda-me a pena na perigosa antecâmara conceptual da palavra alienação) – que, com efeito, desembocou neste cordel que agora se lança aos obscuros e ínvios labirintos digitais deste palavroso mundo que segue, numa estrada de alecrim e rosmaninho, de vitória em vitória até à derrota final, onde «muyto deue de doer a torcedura da rezam»*. Vazadouro é, pois, e mais não se espera do que a benevolência dos enfadados que por uma qualquer informidade do desespero aqui venham desenfadar-se. «O Bem se deue crer de todos, & de ninguem o mal sem prova»**.

Todavia, ainda que seja este quiosque um vazadouro literário, convém aos desprevenidos da censura alheia que se esclareça o que é um vazadouro sem que este justo propósito seja punido com a benignidade de uma expressiva e rejubilante visita guiada.

O Diccionario da Lingua Portugueza composto pelo Padre D. Rafael Bluteau, reformado, e acrescentado por Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro, Lisboa, na Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1789, página 511, não elenca a palavra vazadouro, como seria de adivinhar, mas refere a que lhe está na origem, vazar, e outras da mesma natureza. Começa por referir «VASADOR, f.m. ferro de correieiros, com que fazem buracos redondos». Disciplinamo-nos sem rebuço e até ao sangue por este vazadouro literário, verdadeiro buraco – não sabemos se redondo – de spleen que os mais avisados não hesitarão em classificar no chão da indigência, mas ferros de correeiros aqui, não. Já se sabe que quem muito fala dá «Bom dia!» a cavalos. Segue a esta definição a de «VASADURA, f.f. a agua que se vasa, e espeja». Estaria certa a palavra para este cordel, literatura que se vaza e despeja, mas não adequada por inteiro, pois veio o tempo dar significados mais pertinentes e concordantes que tornam a palavra «vazadouro» verdadeira e cruel. Mas enfim, «vasadura» é em parte. «VASANTE, part.pass. de vasar, mare vasante, oppõe-se a enchente, §subs. Na vasante, a maré, i.e., quando vasa. §Vasante da Lua, minguante. Veiga Ethiop. f. 27. v. §Dar vasante aos que se vinhão confessar, i.e. vasão, despachalos, confessalos, Veiga Ethiop. f. 56. v.», sendo embora da família, também não preenche os requisitos conceptuais e epistemológicos desta vitória que se reproduz na direcção da derrota final. Todo o mundo e mais terço eleva na ara da harmonia a família mas quando se perfila no horizonte o cíclico albergue espanhol dos aniversários e das festas obrigatórias do calendário comum, religioso ou profano, grita mudo o afastamento de tal cálice. «Vasante» é da família mas não é o mesmo que «vazadouro». Por outro lado, também não se pretende «dar vasante» aos leitores com a intenção desmiolada de represar estatísticas. «Vasão» já pesa: «VASÃO, f.m. o ato de esgotar a agua de algum vaso onde está reprezada. §f. Extracção, exportação, saca, saída v.g.,, as drogas tem vasão para Turquia. Godinho. Expedição aos negocios, desembaraço delles com a sua confusão, v.g., , dar vasão aos requerimentos, e ao serviço da casa. v. Arraes 2. 20». Os deuses ou o acaso livrem o subscritor desta imprudência literária da mais ténue sombra de um esgotamento seja ele de que natureza for. Ademais, não havendo aqui confusões, também não há negócios, logo, não haverá lugar a requerimentos.
Por último, António de Morais Silva regista a palavra «VASAR, v. at. Tirar, deixar correr, soltar liquido do vaso, tanque, poço. §Vasar as [.]ernes do sangue, sangralas, esgotalas delle. Arraes, e. 13. §Vasar hum olho, quebralo, extrair-lhe o bugalho, ou os humores. §Vasar a parede, fazer nella algum vão, e assim vasar qualquer peça sólida, cavando-a, e deixando-lhe a tona. §Obra de ourives vasada, i.e. feita em frasco de metal derretido. §Vasar, de dar, ou encalhar na vasa. Lucena, senão tem errado o lugar para varar. §Varar, passar de parte a parte v.g., , vasou-lhe as coixas com hum tiro, , Goes Cron. Man. 4 p. c.53. vasar a lança em alguem, , traspassallo com ella. Castan 2. f. 237. Sair v.g. , vasou pela porta. Barros, e Fernão Mendes c. 65. §Vasar, dar largamente v.g. ,, vasar mais livremente do teu, que do publico ,, Pinheiro 2. f. 74. § ––– se, no fig. Descobrir o segredo. §Vasar-se o sangue das veias, ou vasar sangue de, i.e. soltar se, e soltar. § ––– se, Ficar vasio v.g. ,, vasou-se a estancia da gente que a guarnecia ,, P. Pereira L. 2. f. 69. v.» É verdade, estas sucessivas vitórias literárias são, de facto, para «tirar, deixar correr, soltar» e a mais não somos obrigados sob o «véu diáfano» da indulgência. O «vaso», o «tanque» ou o «poço» de onde singra o vazamento é o génio do artista que só o cansaço ou o sono aplacam. Deste último verbete o que se aplica a esta vitória literária é o «vasar» que indica movimento.
Os esclarecimentos recentes são mais sucintos e o Dicionário da Língua Portuguesa, por J. Almeida Costa e A. Sampaio e Melo com a contribuição de um grupo de colaboradores especializados, 5.ª edição muito corrigida e aumentada, Porto, 1977, página 1468, assinala «Vazadouro, n.m. – o m. q. vazadoiro; lugar onde se vazam líquidos; depósitos de imundícies; sítio público onde acorrem indivíduos de porte desonesto» e a edição mais recente de que dispomos (2014, página 1628) informa, prescindindo da mancha pública, «vazadouro, n.m. – 1. Lugar onde se vazam líquidos. 2. Depósito de imundícies, terras, materiais sobrantes, etc. (de vazar + dor)». É isto, um vazamento intelectual doloroso, está feito.
Resta informar que hoje já não se pratica a acção vulgar do vazamento (com ou sem aviso) e portanto foram abolidos os vazadouros. A lei (Decreto-lei n.º 52/2002, de 23 de Maio) assim o diz: hoje o que se verifica é «a deposição de resíduos em aterros [que] constitui uma particular operação de gestão de resíduos» supervisionada pelo Instituto de Resíduos, cujas atribuições, competências e estrutura orgânica estão definidas pelo Decreto-lei n.º 142/96, de 23 de Agosto, que o criou. Não desmereceria desta vitória a caminho da derrota a informação «um aterro literário de fulano de tal». Mas sucede que se num «aterro literário» não se deve mexer, num vazadouro literário é sempre libertador remexer.

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*. Sentenças de D. Francisco de Portugal 1.º Conde do Vimioso seguidas das suas poesias publicadas no Cancioneiro de Garcia de Resende, revistas e prefaciadas por Mendes dos Remédios, Coimbra, França Amado Editor, 1905, p. 32.
**. Ibidem, p. 22.

 

80_Hendrik Goltzius

J. B., o Velho