UM SONETO INÉDITO DA POETISA E CANTORA LÍRICA MARCOLINA MARIA

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Recebi, por via de bilhete amigo, a notícia da edição da poesia da cantora lírica Marcolina Maria, minha inebriante e quente amiga. Chegou-me tal nova do incansável pensador Catatau Vincennes, o qual se me endereçou nestes termos, pelos meios electrónicos hoje existentes: «Júlio, a maluca da Marcolina conseguiu convencer o bêbedo das Edições Portugal Hediondo a publicar-lhe toda a poesia, incluindo, imagina tu, a poesia inédita, a começar por aquela porcaria que ela editou quando estava no Canadá! Parece que aquela merda se vai chamar Minhas Palavras ao Vento, e em dois volumes. Já estás a adivinhar que a gaja vai organizar um jantar em casa dela e cravar-me a porra de um texto sobre o livro… Disseram-me que o X. fala dela neste livro que publicou agora, não admira, isto é um putedo. E tu também me saíste um grande cabrão, vê lá se escreveste um artigo sobre os meus Papéis Perdidos Não esperam os leitores atentos e perscrutadores que eu revele, assim à tripa forra, quem é «X»… Impede-me o pudor, mas sobretudo a resiliente capacidade de sacrifício que me caracteriza – responsável, até, por alguns dolorosos e injustos equívocos com a matulona da parcela abaixo da que habito – que eu proceda a tal desocultação, pois coloco acima das contingências egocêntricas de todos, as Letras portuguesas!

As Edições Portugal Hediondo, com o apoio da Fundação Luso-Monegasca de Estupefacientes e Cultura, vão, pois, publicar em dois tomos a poesia completa da celebrada cantora lírica Marcolina Maria – dentro e fora de portas – e que inclui, para gáudio da cultura literária portuguesa, a reprodução fac-similada do livro que a insigne cantora e poetisa portuguesa publicou nos idos do decénio de Setenta no Canadá, quando lá se encontrava a viver (exilada, hélas!) e a trabalhar na indústria metalúrgica. As suas tournées artísticas canadenses, realizadas com o cantor de intervenção Cipião Operário, também exilado naquele país, são ainda hoje lembradas com irrecusável saudade, quer por Portugueses, quer por naturais. Marcolina conheceu Cipião no meio metalúrgico, pouco depois de chegar ao Canadá, proveniente do Brasil, na sequência do desgosto dilacerante que resultou do estranho e nunca confirmado desaparecimento do seu primeiro marido, o poeta Deodato Candeias, no decorrer de um congresso literário na Amazónia. Estes dois volumes terão o mesmo título do primeiro livro de Marcolina Maria, Minhas Palavras ao Vento, e constituem a feliz oportunidade para a reimpressão de dois dos principais livros que escreveu já em Portugal, para onde regressou depois de Abril de 1974: O Cacete e Furacão de Palavras, respectivamente de 1976 e 1979. Para assinalar a ocasião, e antes de proceder ao vazamento do primeiro Esquiço Biográfico, justamente a aventurosa biografia desta querida Amiga e distinta Artista, procedo agora, com a autorização devida da própria Autora, ao vazamento de um angustiado soneto inédito que integrará o segundo volume de Minhas Palavras ao Vento, dedicado a Inéditos e Rascunhos, em breve publicados pela conceituadíssima editora Portugal Hediondo.

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NÃO VOLTES, AH, NÃO!

Desapiedado, bruto e cruel com’um vento rasgador me acusas,

Cravando em meu exangue peito a infame adaga da desconfiança!

Ah, souberas tu a dor que me aniquila e vence quando t’escusas

Ao vulcânico, fervente amor deste ar interior que triste não t’alcança!

 

Porque te afastas, dissimulado, porque me recusas tua boca,

Se tão belas loas cantaste à minha fremente e escaldante interioridade?

Castigas-me, sim, que eu sei… Mas ainda t’espero, chorosa e taralhoca

No mesmo jardim! Mas sê sincero – não tens de meus gases saudade?

 

Poupa-me à tua falsa e impiedosa resposta, sim, pois não te guardaste

De me enlouquecer com palavras que o vento levou… És um traste…

E eu o sabia desde que o destino, em ti mudado, me bateu nos cornos…

 

Ah, mas sou eu agora que te invectivo, eu toda ferida e impiedosa, inata,

E grito, doida de orgulho, na agonia atroz de uma aragem putrefacta,

Que não voltes, ah, não! Que não voltes a confundir-me os contornos!

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