Bilhetes da vida comum. AS MAMAS, 2

Despertei para o novo dia com a esperança erecta, se bem que, ao de leve me pareceu, com alguma temperatura e, motivado pela impostergável e esplendorosa invectiva da luz solar, com As Mamas de Tirésias não já entre as mãos mas sob o rosto ruborizado, pois fora surpreendido, indefeso nas lucubrações em que me encontrava, pelo poder inapelável de Morfeus, o que contribuiu ainda mais para a minha perturbação, realizei, com o sentimento de alguma pueril revolta, devo confessá-lo, que não podia continuar retido em casa, defeso, em suma, e sem uma razão que se apresentasse ao meu lúcido juízo, como suficientemente avassaladora. Larguei, assim, por momentos, As Mamas de Tirésias e, movido por uma revigorante – e, porque não dizê-lo – penetrante vontade de viver sob a luz benfazeja do Astro-Rei, admitindo, até, uma inspiradora divagação pelas majestosas áleas do Parque centenário, acantonei-me no quarto de banho para as imprescindíveis purificações matinais. Preocupadíssimo, ainda – queimado pelo ferro abrasador de alguma angústia, admito-o – com o transtorno que involuntariamente causara, na ante-véspera, ao espírito desprevenido, pelo menos àquelas horas desusadas, da minha jovem vizinha, o banho retemperador e relaxante prolongou-se por mais tempo do que o habitual, dado que não conseguia deixar de pensar na matulona – masoquismos próprios de um espírito filantrópico, confesso-o, hélas!, o que me provocou algumas dificuldades com o manuseamento adequado do sabonete e com a dose correcta do champoo, uma vez que a embalagem plástica se mostrava refractária – apesar do seu contemporâneo design – a deixar fluir o perfumado composto químico destinado ao tratamento higiénico e profiláctico do que resta (com aceitável robustez, não me inibo de o dizer) da sedosa pujança capitar de outrora. A água quente provocou um agradável relaxamento muscular, apesar de alguma indisciplina previsível, e levei a bom termo o imperativo higiénico de todo o homem civilizado que sabe reconhecer a importância de uma first impression. Assim estimulado, decidi, pois, investir sem mais delongas sobre a latagona e enfrentar, com a devida dureza, a manipulação de que estava a ser objecto desde a tempestuosa ante-véspera. Resolvi-me até, confiante, a tomar o pequeno-almoço numa das mais prestigiadas pastelarias da cidade, numa resolução contrária à minha frugalidade, dado que se impunha abreviar a desassossegada tenção latente, resultante, afinal, de uma preocupação absolutamente altruísta e adveniente da adversidade causada pelo furioso estado do tempo que a todos fustigara na ante-véspera, até porque o ar, no espaço comum da escada que proporciona o acesso às diferentes parcelas particulares do edifício, é gélido em tais horas e, além do mais, não é agradável ser-se encontrado, desprevenido e indefeso, na intimidade de um roupão, decente mas sempre um roupão, a premir a campainha da porta de uma solitária (mas não abandonada) jovem vizinha e exposto a um inoportuno e comprometedor flagrante fotográfico.

Certifiquei-me, todavia, antes de transpor o umbral da minha habitação, que as luzes da escada comum estavam apagadas e que não se verificavam sinais de movimentações vizinhas. Compreendi, afinal, a inutilidade de tais preocupações porque, meia-dúzia de degraus mais tarde, todas as luzes se acenderam e os meus sentidos despertaram com alguma violência ao ouvir a voz da inebriante e castigadora latagona. Precavi-me, de imediato – estaquei por alguns segundos – no sentido de não correr o risco de introduzir, na obrigatória saudação à minha jovem vizinha, referências bibliográficas de qualquer tipo, pois dava-se a infelicidade de me ter esquecido de tomar o devido comprimido para a tensão arterial, o que deveria ter feito, mesmo ainda antes do banho a que acima aludo. No entanto, mudei a evidência de tal fraqueza obliteradora, na saudável constatação de uma condição física que me permitia residir, sem preocupações assinaláveis, no último andar do prédio inibindo-me, com frequência, de utilizar o ascensor. Encontrei pois a matulona no patamar da sua habitação a retirar – com despreocupada e inconsciente languidez – as necessárias chaves do centro carnudo do seu tomara-que-caia, o que naturalmente não contribuiu para o imprescindível alinhamento cauteloso das palavras a utilizar na breve troca de saudações quase fini-matinais, que não incluiriam, sob pretexto algum, qualquer referência bibliográfica. Admito que o primeiro cumprimento – o imprescindível «Bom dia, menina» – tenha sido caracterizado por alguma vacilante insegurança, mas, recomposto com a devida rapidez, introduzi-me: «A menina permita-me esclarecer que esta madrugada proporcionou um…» A minha latejante vizinha, na despreocupação própria das almas bondosas, quiçá perturbada, admito-o, pelo impacto inesperado da minha voz ecoando na caixa da escada, deixou cair as chaves – «Oh, porra!» exclamou, com a graciosidade inata que a caracteriza – e o movimento de as procurar e apanhar do chão frio, fez-me realizar que não só deveria ter tomado o profiláctico comprimido para a loucura sanguínea como aguardado mais tempo antes de ter saído de casa, como, até, ter-me detido com maior delonga no banho. Era tarde, agora, para tais considerações, e nada mais havia a fazer senão enfrentar, com a possível presença de espírito, periclitante mas possível, a perturbadora e carnal realidade em movimento que ameaçava, uma vez mais, fazer cair sobre mim um inesperado e injusto opróbrio, até porque a Adelaide, do andar imediato na ordem descendente, abrira a porta da sua habitação. E abeirava-se agora da escaldante latagona, para catástrofe das minhas contas, carregado de sacos de onde transbordava uma vetusta vegetação hortícola, o Adérito, não sei precisar se o mesmo desvalido amigo da véspera, se outro. O certo é que, sem uma palavra, ambos entraram para a calorosa habitação enquanto trocavam, em voz baixa, algumas impressões, das quais consegui discernir, no som da voz do aproveitador, as palavras «porco» e «tarado» e, por fim, a expressão algo indelicada «Fecha a porta, Tânia!». Todavia, a minha madura vizinha não despira de si a imprescindível civilidade, e ouvi, dos seus carnudos e vermelhos lábios, capazes de recuperar um gaseado da Primeira Guerra Mundial (estamos no Centenário, tenho que lho referir, assim se me vislumbre a oportunidade), um escaldante «Bom dia, doutor.» (Pareceram-me assim desfeitos, sem piedade, sem a esperança de um apelo, todos os esforços que no tempo devido empreendera no sentido da boa vizinhança.) Mas um misericordioso estoque final me aguardava ainda, pois a matulona deixou a porta aberta enquanto se inclinava para pegar nos sacos que o energúmeno ajudante deixara no hall de entrada, ao mesmo tempo que deles se baldava toda a hortaliça. Refiz-me, conhecedor como sou, da complexidade da psiché humana; compreendi, com dor, que não seria viável assisti-la no desregramento dos legumes, sob pena de um escândalo sem nenhum proveito, quem sabe se na iminência de ferimentos nasais, e desci ao patamar seguinte onde com toda a certeza me aguardava, provocadora, num dos seus «peace and love days», a Adelaide, dado que o neto viera tomar com ela um oportuno chá de «erva».

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Flagrante fotográfico: a gentil actriz da Warner, Angela Green, nas páginas de uma publicação especializada que encontrei no espólio de periódicos do meu saudoso avô. Défense de réproduction.

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