Bilhetes da vida comum. AS MAMAS.

Recolho-me ao leito tarde, já bem dentro da madrugada, pois aprecio sobremaneira o silêncio libertador da noite e é nessa quietude que me dedico aos escritos mais íntimos, interrompido embora, nestas introspectivas manifestações do meu pensamento, pelo ruído dos vizinhos quando baixam à sentina e procedem, não apenas aos eflúvios da Natureza, mas igualmente à descarga tempestuosa da água do autoclismo. Um ou outro cão ladra para a escuridão, é certo, mas não convivo, felizmente, com os desregramentos retóricos de bêbedos impenitentes que da rua declamam entontecidas odes à liberdade criadora e a praticam, umas vezes sós, outras vezes acompanhados, e quantas vezes espatifando sem pudor os bens públicos ou deixando nos passeios os resultados das suas tormentas digestivas. Violentíssima tempestade nos assolou a todos durante esta madrugada, apanágio do Inverno inclemente, que abriu com violência a porta da cozinha, já eu estava deitado e entretido com as elucubrações próprias, e bastante criativas, dizem-no os especialistas da saúde mental, que antecedem o sono. Ao mesmo tempo que a empedernida borrasca, com ventos cortantes e chuva desabrida, fustigava a cidade desprotegida e os seus habitantes indefesos, da parcela habitada pela minha jovem vizinha, chegavam à perscrutadora atenção dos meus sentidos, sons que indicavam particularidades de alguma espécie, umas vezes prazerosos, outras vezes entretecidos com alguma dor. Dada a circunstância da infernal borrasca, e de ter cedido a porta da minha cozinha, considerei adequado verificar se essa minha jovem vizinha – uma latagona na experiente loucura do início dos Quarenta, muito provavelmente ainda não tendo abandonado os Trinta – permanecia na segurança devida para a tranquilidade do sono. Vesti o pesado roupão que uso nesta época adversa e desci ao andar de baixo. «Diga lá o que quer senhor Júlio, é muito tarde.» (Prescindi do tratamento distanciador de «doutor» ou «professor» alguns dias após a latagona se ter mudado para o edifício, não movido pela tontura da intimidade, mas somente pela necessidade de uma pacífica vizinhança, entenda-se.) Teci algumas muito breves considerações sobre a violência da tempestade que a todos fustigava, referi até que quase me destruíra a porta da cozinha, e inquiri se se encontrava tranquila no sossego que se exige dentro do lar. «Sim, senhor Júlio, está tudo bem, vá lá sossegar… Até estou ocupada, se quer saber.» Insisti que verificasse as portas e as janelas, dado que a porta da minha cozinha tinha cedido aos Elementos em fúria. «Já verifiquei tudo, senhor Júlio, vá sossegar ou distrair-se com alguma coisa… Agradeço-lhe muito o seu cuidado, mas estou bem.» Compreendi que não estava só pois fechando um pouco a porta, a minha simpática vizinha, que vive só (mas não abandonada) respondeu a qualquer observação vinda de uma câmara interior com «Já vou, Adérito… não esmoreças, amor.» Algum amigo em dificuldades que procurara, em desespero, sabe-se lá por que agruras da vida, o ombro consolador desta simpática matulona, que já me haviam qualificado como uma «bênção da Natureza», pensei. Um particularíssimo drama se desenrolava, sabe-se lá até que limites devastadores, pelo que entendi que, estando verificado o sossego da minha consoladora vizinha, devia retirar-me. Prontificava-me a regressar à minha parcela particular quando um último agradecimento me alvejou: «É muito simpático da sua parte, senhor Júlio Bernardo, ter-se incomodado, com licença…». Afigurou-se-me necessário, então, corresponder a esta dolente simpatia, e oferecer uma desinteressada justificação. «Não incomodou nada, menina, permita-me que suba, dado que tinha em mãos As Mamas de Tirésias.» Não vou reproduzir a fraseologia caracterizadora, terrivelmente caracterizadora, da latagona, e limito-me a referir que hoje ainda não desci à rua.

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Imagem: uma ingénua colagem dos tempos de estudante do artista plástico Badalo Melena, colecção muito particular do Autor deste vazadouro particular. Défense de réproduction.

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