«Muito deve doer a torcedura da razão». O QUE É UM VAZADOURO, EM PARTICULAR UM VAZADOURO LITERÁRIO, E MAIS AINDA EM PARTICULAR O VAZADOURO LITERÁRIO DE JÚLIO BERNARDO O VELHO

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Dá o Globo habitado a quotidiana rotação e a translação anual que conhecemos e os nossos sentidos e a Ciência demonstram. História antiga sem princípio que certos saibamos nem fim que adivinhar possamos. Frequentes voltas dá também a Literatura quantas vezes assinalada pelo selo pendente do prefácio legitimador ou benfazejo, no eloquente gesto de algum dos deuses do Olimpo da Letras, o qual, não passeando propriamente pela brisa da tarde, com justa perspectiva indica o que deve ou não considerar-se na avassaladora actividade dos mais distintos prelos editoriais. E quando não os deuses eles mesmos, de tal função se investem ou são investidos, os sagrados escolhidos.

Acontece que escasseiam os vazadouros; verdade é que ninguém gosta de vazadouros e é por essa razão de decência e de higiene que aos monturos medievais fez a Revolução Industrial e o Urbanismo suceder os sistemas canalizados de esgotos. Preocupação antiga, todavia. A tão célebre e ancestral expressão «Lá vai água!» avisava o transeunte que despachasse o passo ou se abrigasse sob colunata ou passadiço se não quisesse ele mesmo verificar que o aviso correspondia a «Lá vai merda!».

Ora, não será decerto este particular vazadouro literário em fascículos – que apesar de tudo desemboca na cloaca comum das Letras – a sua mais proeminente chaga. Do espírito me seja afastada a mais ténue nebline de juízo próprio e, assim, abandonamos aos demais, o impiedoso crivo da exigência crítica, ou seja, a avaliação do quilate deste vazamento; mas havia, sim, uma urgência – a urgência de não sufocar no ímpeto tronante da perplexidade a clareza da demência geral (o receio abranda-me a pena na perigosa antecâmara conceptual da palavra alienação) – que, com efeito, desembocou neste cordel que agora se lança aos obscuros e ínvios labirintos digitais deste palavroso mundo que segue, numa estrada de alecrim e rosmaninho, de vitória em vitória até à derrota final, onde «muyto deue de doer a torcedura da rezam»*. Vazadouro é, pois, e mais não se espera do que a benevolência dos enfadados que por uma qualquer informidade do desespero aqui venham desenfadar-se. «O Bem se deue crer de todos, & de ninguem o mal sem prova»**.

Todavia, ainda que seja este quiosque um vazadouro literário, convém aos desprevenidos da censura alheia que se esclareça o que é um vazadouro sem que este justo propósito seja punido com a benignidade de uma expressiva e rejubilante visita guiada.

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O Diccionario da Lingua Portugueza composto pelo Padre D. Rafael Bluteau, reformado, e acrescentado por Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro, Lisboa, na Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1789, página 511, não elenca a palavra vazadouro, como seria de adivinhar, mas refere a que lhe está na origem, vazar, e outras da mesma natureza. Começa por referir «VASADOR, f.m. ferro de correieiros, com que fazem buracos redondos». Disciplinamo-nos sem rebuço e até ao sangue por este vazadouro literário, verdadeiro buraco – não sabemos se redondo – de spleen que os mais avisados não hesitarão em classificar no chão da indigência, mas ferros de correeiros aqui, não. Já se sabe que quem muito fala dá «Bom dia!» a cavalos. Segue a esta definição a de «VASADURA, f.f. a agua que se vasa, e espeja». Estaria certa a palavra para este cordel, literatura que se vaza e despeja, mas não adequada por inteiro, pois veio o tempo dar significados mais pertinentes e concordantes que tornam a palavra «vazadouro» verdadeira e cruel. Mas enfim, «vasadura» é em parte. «VASANTE, part.pass. de vasar, mare vasante, oppõe-se a enchente, §subs. Na vasante, a maré, i.e., quando vasa. §Vasante da Lua, minguante. Veiga Ethiop. f. 27. v. §Dar vasante aos que se vinhão confessar, i.e. vasão, despachalos, confessalos, Veiga Ethiop. f. 56. v.», sendo embora da família, também não preenche os requisitos conceptuais e epistemológicos desta vitória que se reproduz na direcção da derrota final. Todo o mundo e mais terço eleva na ara da harmonia a família mas quando se perfila no horizonte o cíclico albergue espanhol dos aniversários e das festas obrigatórias do calendário comum, religioso ou profano, grita mudo o afastamento de tal cálice. «Vasante» é da família mas não é o mesmo que «vazadouro». Por outro lado, também não se pretende «dar vasante» aos leitores com a intenção desmiolada de represar estatísticas. «Vasão» já pesa: «VASÃO, f.m. o ato de esgotar a agua de algum vaso onde está reprezada. §f. Extracção, exportação, saca, saída v.g.,, as drogas tem vasão para Turquia. Godinho. Expedição aos negocios, desembaraço delles com a sua confusão, v.g., , dar vasão aos requerimentos, e ao serviço da casa. v. Arraes 2. 20». Os deuses ou o acaso livrem o subscritor desta imprudência literária da mais ténue sombra de um esgotamento seja ele de que natureza for. Ademais, não havendo aqui confusões, também não há negócios, logo, não haverá lugar a requerimentos.

95 - CópiaPor último, António de Morais Silva regista a palavra «VASAR, v. at. Tirar, deixar correr, soltar liquido do vaso, tanque, poço. §Vasar as [.]ernes do sangue, sangralas, esgotalas delle. Arraes, e. 13. §Vasar hum olho, quebralo, extrair-lhe o bugalho, ou os humores. §Vasar a parede, fazer nella algum vão, e assim vasar qualquer peça sólida, cavando-a, e deixando-lhe a tona. §Obra de ourives vasada, i.e. feita em frasco de metal derretido. §Vasar, de dar, ou encalhar na vasa. Lucena, senão tem errado o lugar para varar. §Varar, passar de parte a parte v.g., , vasou-lhe as coixas com hum tiro, , Goes Cron. Man. 4 p. c.53. vasar a lança em alguem, , traspassallo com ella. Castan 2. f. 237. Sair v.g. , vasou pela porta. Barros, e Fernão Mendes c. 65. §Vasar, dar largamente v.g. ,, vasar mais livremente do teu, que do publico ,, Pinheiro 2. f. 74. § ––– se, no fig. Descobrir o segredo. §Vasar-se o sangue das veias, ou vasar sangue de, i.e. soltar se, e soltar. § ––– se, Ficar vasio v.g. ,, vasou-se a estancia da gente que a guarnecia ,, P. Pereira L. 2. f. 69. v.» É verdade, estas sucessivas vitórias literárias são, de facto, para «tirar, deixar correr, soltar» e a mais não somos obrigados sob o «véu diáfano» da indulgência. O «vaso», o «tanque» ou o «poço» de onde singra o vazamento é o génio do artista que só o cansaço ou o sono aplacam. Deste último verbete o que se aplica a esta vitória literária é o «vasar» que indica movimento.

Os esclarecimentos recentes são mais sucintos e o Dicionário da Língua Portuguesa, por J. Almeida Costa e A. Sampaio e Melo com a contribuição de um grupo de colaboradores especializados, 5.ª edição muito corrigida e aumentada, Porto, 1977, página 1468, assinala «Vazadouro, n.m. – o m. q. vazadoiro; lugar onde se vazam líquidos; depósitos de imundícies; sítio público onde acorrem indivíduos de porte desonesto» e a edição mais recente de que dispomos (2014, página 1628) informa, prescindindo da mancha pública, «vazadouro, n.m. – 1. Lugar onde se vazam líquidos. 2. Depósito de imundícies, terras, materiais sobrantes, etc. (de vazar + dor)». É isto, um vazamento intelectual doloroso, está feito.

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Resta informar que hoje já não se pratica a acção vulgar do vazamento (com ou sem aviso) e portanto foram abolidos os vazadouros. A lei (Decreto-lei n.º 52/2002, de 23 de Maio) assim o diz: hoje o que se verifica é «a deposição de resíduos em aterros [que] constitui uma particular operação de gestão de resíduos» supervisionada pelo Instituto de Resíduos, cujas atribuições, competências e estrutura orgânica estão definidas pelo Decreto-lei n.º 142/96, de 23 de Agosto, que o criou. Não desmereceria desta vitória a caminho da derrota a informação «um aterro literário de fulano de tal». Mas sucede que se num «aterro literário» não se deve mexer, num vazadouro literário é sempre libertador remexer.

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*. Sentenças de D. Francisco de Portugal 1.º Conde do Vimioso seguidas das suas poesias publicadas no Cancioneiro de Garcia de Resende, revistas e prefaciadas por Mendes dos Remédios, Coimbra, França Amado Editor, 1905, p. 32.

**. Ibidem, p. 22.

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