Quadras populares inéditas da poetisa e cantora lírica Marcolina Maria

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Baile popular

Já toc’ a concertina

Vem comigo bailar

Eu até sou menina

P’ra na roda vomitar

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P’ra na roda vomitar

P’ra na roda vomitar

Já toc’a concertina

Quero espalhafatar

92 - Cópia

Vem lá ter comigo

Apanh’ó expresso

Beija-m’o umbigo

Sou eu que te peço

92 - Cópia

Sou eu que te peço

Sou eu que te peço

Vem lá ter comigo

Senão eu arrefeço

92 - Cópia

Enquanto não chegas

Eu vou-me lembrando

Quando tu conduzias

E eu m’ia soltando

74 - Cópia

E eu m’ia soltando

E eu m’ia soltando

Enquanto não chegas

Eu vou rebolando

92 - Cópia

Seguíamos contentes

Até p’la contramão

C’os estampidos quentes

Não viste o camião

92 - Cópia

Não viste o camião

Não viste o camião

Seguíamos contentes

E eu perdi o tampão

92 - Cópia

Chocámos de frente

Com um TIR velhaco

P’ra ti foi bem feito

Votaras no Cavaco

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Votaras no Cavaco

Votaras no Cavaco

Chocámos de frente

Ficáramos um caco

92 - Cópia

Tomara que chegues

Estou como louca

Tu queres não negues

Um peido na boca

92 - Cópia

Um peido na boca

Um peido na boca

Tomara que chegues

Vamos p’rá banhoca

92 - Cópia

Estou nos teus braços

Tomei um’aspirina

Anda, vem bailar

Já toc’a concertina

92 - Cópia

Já toc’a concertina

Já toc’a concertina

P’ra não me soltar

Tomei um’aspirina

13 - Cópia

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Uma inédita Ode juvenil de Catatau Vincennes

38 - Cópia

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Do mundo foragidos, por ínvios trilhos e arvoredos,

Na solidão dos campos, renegados de conselhos,

Ledos corríamos, movidos só por húmidos segredos…

Na palha do gado copulávamos que nem coelhos…

Nossos semblantes, transpirados e vermelhos,

Irradiavam a felicidade dos amantes condenados!

Condenados, sim, perdidos, mas transpirados…

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E soíamos depois do mundo fugir sem receio,

E tomar autocarro, cavalos ou carroça sem freio

Buscando na dissipada linha do horizonte

Um país onde fôssemos, à vez, a água e a fonte;

E não estes dois renegados fugidos, a monte

Como vulgares contrabandistas, infectos bandidos…

Fujamos, Amada, até que do mundo sejamos esquecidos!

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Ilustração e fotografia do espólio particular de Catatau Vincennes, gentilmente cedidas por sua filha, Manga Vincennes, sem o conhecimento do poeta e pensador, o que ainda mais revigora os protestos desenfreados da minha gratidão. Défense de reproduction.

OUTRO SONETO INÉDITO DA POETISA E CANTORA LÍRICA MARCOLINA MARIA

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Oh, tormentosa noite, sombria madrugada!

Ah, quiméricos sonhos, mortais pesadelos!

Oh, porra p’ra isto, acordei estremunhada!

Ah, que tenho o cruel mundo pelos cabelos!

 

Oh, se ao menos me desse a noite descanso!

Ah, mas não sei dormir pensando só em ti!

Oh, em amargo estado vivo e sem remanso!

Ah, dou voltas e voltas na cama e não te vi!

 

Oh, passam lentas e pesadas as horas frias!

Ah, recordando as cócegas que me fazias!

Oh, como tudo isso noite adentro é passado!

 

Ah, não consigo pregar olho, sou acordada!

Oh, desespero, levanto-me e como, revoltada!

Ah, vida mais triste do que triste é o fado!

 

Montréal, Estaleiros Navais, 26 de Março de 1970, intervalo do almoço.

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UM SONETO INÉDITO DA POETISA E CANTORA LÍRICA MARCOLINA MARIA

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Recebi, por via de bilhete amigo, a notícia da edição da poesia da cantora lírica Marcolina Maria, minha inebriante e quente amiga. Chegou-me tal nova do incansável pensador Catatau Vincennes, o qual se me endereçou nestes termos, pelos meios electrónicos hoje existentes: «Júlio, a maluca da Marcolina conseguiu convencer o bêbedo das Edições Portugal Hediondo a publicar-lhe toda a poesia, incluindo, imagina tu, a poesia inédita, a começar por aquela porcaria que ela editou quando estava no Canadá! Parece que aquela merda se vai chamar Minhas Palavras ao Vento, e em dois volumes. Já estás a adivinhar que a gaja vai organizar um jantar em casa dela e cravar-me a porra de um texto sobre o livro… Disseram-me que o X. fala dela neste livro que publicou agora, não admira, isto é um putedo. E tu também me saíste um grande cabrão, vê lá se escreveste um artigo sobre os meus Papéis Perdidos Não esperam os leitores atentos e perscrutadores que eu revele, assim à tripa forra, quem é «X»… Impede-me o pudor, mas sobretudo a resiliente capacidade de sacrifício que me caracteriza – responsável, até, por alguns dolorosos e injustos equívocos com a matulona da parcela abaixo da que habito – que eu proceda a tal desocultação, pois coloco acima das contingências egocêntricas de todos, as Letras portuguesas!

As Edições Portugal Hediondo, com o apoio da Fundação Luso-Monegasca de Estupefacientes e Cultura, vão, pois, publicar em dois tomos a poesia completa da celebrada cantora lírica Marcolina Maria – dentro e fora de portas – e que inclui, para gáudio da cultura literária portuguesa, a reprodução fac-similada do livro que a insigne cantora e poetisa portuguesa publicou nos idos do decénio de Setenta no Canadá, quando lá se encontrava a viver (exilada, hélas!) e a trabalhar na indústria metalúrgica. As suas tournées artísticas canadenses, realizadas com o cantor de intervenção Cipião Operário, também exilado naquele país, são ainda hoje lembradas com irrecusável saudade, quer por Portugueses, quer por naturais. Marcolina conheceu Cipião no meio metalúrgico, pouco depois de chegar ao Canadá, proveniente do Brasil, na sequência do desgosto dilacerante que resultou do estranho e nunca confirmado desaparecimento do seu primeiro marido, o poeta Deodato Candeias, no decorrer de um congresso literário na Amazónia. Estes dois volumes terão o mesmo título do primeiro livro de Marcolina Maria, Minhas Palavras ao Vento, e constituem a feliz oportunidade para a reimpressão de dois dos principais livros que escreveu já em Portugal, para onde regressou depois de Abril de 1974: O Cacete e Furacão de Palavras, respectivamente de 1976 e 1979. Para assinalar a ocasião, e antes de proceder ao vazamento do primeiro Esquiço Biográfico, justamente a aventurosa biografia desta querida Amiga e distinta Artista, procedo agora, com a autorização devida da própria Autora, ao vazamento de um angustiado soneto inédito que integrará o segundo volume de Minhas Palavras ao Vento, dedicado a Inéditos e Rascunhos, em breve publicados pela conceituadíssima editora Portugal Hediondo.

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NÃO VOLTES, AH, NÃO!

Desapiedado, bruto e cruel com’um vento rasgador me acusas,

Cravando em meu exangue peito a infame adaga da desconfiança!

Ah, souberas tu a dor que me aniquila e vence quando t’escusas

Ao vulcânico, fervente amor deste ar interior que triste não t’alcança!

 

Porque te afastas, dissimulado, porque me recusas tua boca,

Se tão belas loas cantaste à minha fremente e escaldante interioridade?

Castigas-me, sim, que eu sei… Mas ainda t’espero, chorosa e taralhoca

No mesmo jardim! Mas sê sincero – não tens de meus gases saudade?

 

Poupa-me à tua falsa e impiedosa resposta, sim, pois não te guardaste

De me enlouquecer com palavras que o vento levou… És um traste…

E eu o sabia desde que o destino, em ti mudado, me bateu nos cornos…

 

Ah, mas sou eu agora que te invectivo, eu toda ferida e impiedosa, inata,

E grito, doida de orgulho, na agonia atroz de uma aragem putrefacta,

Que não voltes, ah, não! Que não voltes a confundir-me os contornos!

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OS PAPÉIS PERDIDOS DE CATATAU VINCENNES

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Chegou-me enfim, na semana passada, pela via do serviço nacional de Correios, os CTT – Correios Todo o Terreno, o volume há muito iminente nas Letras portuguesas – e nas Artes, porque não dizê-lo… – Os Papéis Perdidos de Catatau Vincennes, remetido por sua filha, Manga Vincennes. Darei conta, em futuro Bilhete de Novas, da impressão que ao meu espírito causou este novo livro do eminente pensador Catatau Vincennes. Por agora, refiro apenas que tem Prefácio escrito pelo exigentíssimo poeta e crítico literário brasileiro Olegário Lapin-Coelho – recebi dele, por estes dias, um bilhete postal remetido de Chernobyl, onde está a participar num congresso internacional de crítica literária pós-contemporânea e apocalíptica, facto do qual também darei notícia aos interessados leitores deste vazadouro literário, até porque a minha modestíssima colaboração foi solicitada pelo organizador, Vladimiro Nunes, o Martelo Vermelho – ao qual se segue um notável estudo assinado pelo crítico e professor luso-americano E. Ross Fartwell, intitulado Catatau Vincennes: um Colosso Desconhecido, e uma série de contribuições testemunhais debaixo da designação Catatau e os Outros: na Beligerância dos Afestos, testemunhos. A estas introduções sucedem-se, então, os Papéis Perdidos propriamente ditos, organizados por Manga Vincennes e pelo crítico de arte A. Matos Cachaço, distribuídos por vários capítulos temáticos. A designação do primeiro capítulo não oferecerá equívocos ao espírito perscrutador dos leitores: Lírica da Mocidade, composto por certa de três centenas de poemas escritos até ao início da idade adulta, e caracterizados por um lirismo que não será demais qualificar como devastador. Daqui se passa para Sob o Jugo da Líbido, o segundo capítulo, onde encontramos, como o próprio nome indica, a poesia erótica, até agora desconhecida, de Catatau Vincennes. Os dois capítulos seguintes, o terceiro e quarto, aparecem ambos designados por Épica do Exílio, mas com os subtítulos, Papéis do Desespero, Lágrimas de Saudade e Papéis da Resitência, Gritos de Esperança, respectivamente, e concernem aos longos anos em que Catatau Vincennes deambulou pelo mundo, doloroso e pungente exílio motivado por uma gralha tipográfica no seu primeiro livro de poesia e que causou um escândalo involuntário na Lisboa de 1940. «Nem me deixaram ir a Belém», diz, ainda hoje, e com alguma graça, o eminente pensador, mas apenas no mais restrito círculo de amigos. Aquando do 25 de Abril de 1974, Catatau Vincennes já estava em Portugal há vários anos, mas a Revolução não lhe é indiferente e o capítulo quinto inclui os Papéis Perdidos escritos durante esse período até ao início dos anos Oitenta; intitula-se Sob a Égide da História: o PEREC de Catatau Vincennes. Esclareço os atentos leitores que as siglas significam Processo Erótico-Revolucionário Em Curso. Os três últimos capítulos, antes do incontornável Índice Analítico, seguem por esta ordem: Fenomenologia Craniana: os Bastidores do Pensamento de Catatau Vincennes – rascunhos do seu sistema filosófico – Um Grande Pincel: Catatau Artista – esboços constituídos por desenhos, aguarelas, colagens, etc. – e, enfim, Vária: Rascunhos e Lixo. Como supra refiro, darei em futuro Bilhete de Novas apropriada recensão das cerca de oitocentas páginas que compõem estes Papéis Perdidos de Catatau Vincennes, fora as ilustrações e as fotografias.

 

 

Bilhetes da vida comum. AS MAMAS, 2

Despertei para o novo dia com a esperança erecta, se bem que, ao de leve me pareceu, com alguma temperatura e, motivado pela impostergável e esplendorosa invectiva da luz solar, com As Mamas de Tirésias não já entre as mãos mas sob o rosto ruborizado, pois fora surpreendido, indefeso nas lucubrações em que me encontrava, pelo poder inapelável de Morfeus, o que contribuiu ainda mais para a minha perturbação, realizei, com o sentimento de alguma pueril revolta, devo confessá-lo, que não podia continuar retido em casa, defeso, em suma, e sem uma razão que se apresentasse ao meu lúcido juízo, como suficientemente avassaladora. Larguei, assim, por momentos, As Mamas de Tirésias e, movido por uma revigorante – e, porque não dizê-lo – penetrante vontade de viver sob a luz benfazeja do Astro-Rei, admitindo, até, uma inspiradora divagação pelas majestosas áleas do Parque centenário, acantonei-me no quarto de banho para as imprescindíveis purificações matinais. Preocupadíssimo, ainda – queimado pelo ferro abrasador de alguma angústia, admito-o – com o transtorno que involuntariamente causara, na ante-véspera, ao espírito desprevenido, pelo menos àquelas horas desusadas, da minha jovem vizinha, o banho retemperador e relaxante prolongou-se por mais tempo do que o habitual, dado que não conseguia deixar de pensar na matulona – masoquismos próprios de um espírito filantrópico, confesso-o, hélas!, o que me provocou algumas dificuldades com o manuseamento adequado do sabonete e com a dose correcta do champoo, uma vez que a embalagem plástica se mostrava refractária – apesar do seu contemporâneo design – a deixar fluir o perfumado composto químico destinado ao tratamento higiénico e profiláctico do que resta (com aceitável robustez, não me inibo de o dizer) da sedosa pujança capitar de outrora. A água quente provocou um agradável relaxamento muscular, apesar de alguma indisciplina previsível, e levei a bom termo o imperativo higiénico de todo o homem civilizado que sabe reconhecer a importância de uma first impression. Assim estimulado, decidi, pois, investir sem mais delongas sobre a latagona e enfrentar, com a devida dureza, a manipulação de que estava a ser objecto desde a tempestuosa ante-véspera. Resolvi-me até, confiante, a tomar o pequeno-almoço numa das mais prestigiadas pastelarias da cidade, numa resolução contrária à minha frugalidade, dado que se impunha abreviar a desassossegada tenção latente, resultante, afinal, de uma preocupação absolutamente altruísta e adveniente da adversidade causada pelo furioso estado do tempo que a todos fustigara na ante-véspera, até porque o ar, no espaço comum da escada que proporciona o acesso às diferentes parcelas particulares do edifício, é gélido em tais horas e, além do mais, não é agradável ser-se encontrado, desprevenido e indefeso, na intimidade de um roupão, decente mas sempre um roupão, a premir a campainha da porta de uma solitária (mas não abandonada) jovem vizinha e exposto a um inoportuno e comprometedor flagrante fotográfico.

Certifiquei-me, todavia, antes de transpor o umbral da minha habitação, que as luzes da escada comum estavam apagadas e que não se verificavam sinais de movimentações vizinhas. Compreendi, afinal, a inutilidade de tais preocupações porque, meia-dúzia de degraus mais tarde, todas as luzes se acenderam e os meus sentidos despertaram com alguma violência ao ouvir a voz da inebriante e castigadora latagona. Precavi-me, de imediato – estaquei por alguns segundos – no sentido de não correr o risco de introduzir, na obrigatória saudação à minha jovem vizinha, referências bibliográficas de qualquer tipo, pois dava-se a infelicidade de me ter esquecido de tomar o devido comprimido para a tensão arterial, o que deveria ter feito, mesmo ainda antes do banho a que acima aludo. No entanto, mudei a evidência de tal fraqueza obliteradora, na saudável constatação de uma condição física que me permitia residir, sem preocupações assinaláveis, no último andar do prédio inibindo-me, com frequência, de utilizar o ascensor. Encontrei pois a matulona no patamar da sua habitação a retirar – com despreocupada e inconsciente languidez – as necessárias chaves do centro carnudo do seu tomara-que-caia, o que naturalmente não contribuiu para o imprescindível alinhamento cauteloso das palavras a utilizar na breve troca de saudações quase fini-matinais, que não incluiriam, sob pretexto algum, qualquer referência bibliográfica. Admito que o primeiro cumprimento – o imprescindível «Bom dia, menina» – tenha sido caracterizado por alguma vacilante insegurança, mas, recomposto com a devida rapidez, introduzi-me: «A menina permita-me esclarecer que esta madrugada proporcionou um…» A minha latejante vizinha, na despreocupação própria das almas bondosas, quiçá perturbada, admito-o, pelo impacto inesperado da minha voz ecoando na caixa da escada, deixou cair as chaves – «Oh, porra!» exclamou, com a graciosidade inata que a caracteriza – e o movimento de as procurar e apanhar do chão frio, fez-me realizar que não só deveria ter tomado o profiláctico comprimido para a loucura sanguínea como aguardado mais tempo antes de ter saído de casa, como, até, ter-me detido com maior delonga no banho. Era tarde, agora, para tais considerações, e nada mais havia a fazer senão enfrentar, com a possível presença de espírito, periclitante mas possível, a perturbadora e carnal realidade em movimento que ameaçava, uma vez mais, fazer cair sobre mim um inesperado e injusto opróbrio, até porque a Adelaide, do andar imediato na ordem descendente, abrira a porta da sua habitação. E abeirava-se agora da escaldante latagona, para catástrofe das minhas contas, carregado de sacos de onde transbordava uma vetusta vegetação hortícola, o Adérito, não sei precisar se o mesmo desvalido amigo da véspera, se outro. O certo é que, sem uma palavra, ambos entraram para a calorosa habitação enquanto trocavam, em voz baixa, algumas impressões, das quais consegui discernir, no som da voz do aproveitador, as palavras «porco» e «tarado» e, por fim, a expressão algo indelicada «Fecha a porta, Tânia!». Todavia, a minha madura vizinha não despira de si a imprescindível civilidade, e ouvi, dos seus carnudos e vermelhos lábios, capazes de recuperar um gaseado da Primeira Guerra Mundial (estamos no Centenário, tenho que lho referir, assim se me vislumbre a oportunidade), um escaldante «Bom dia, doutor.» (Pareceram-me assim desfeitos, sem piedade, sem a esperança de um apelo, todos os esforços que no tempo devido empreendera no sentido da boa vizinhança.) Mas um misericordioso estoque final me aguardava ainda, pois a matulona deixou a porta aberta enquanto se inclinava para pegar nos sacos que o energúmeno ajudante deixara no hall de entrada, ao mesmo tempo que deles se baldava toda a hortaliça. Refiz-me, conhecedor como sou, da complexidade da psiché humana; compreendi, com dor, que não seria viável assisti-la no desregramento dos legumes, sob pena de um escândalo sem nenhum proveito, quem sabe se na iminência de ferimentos nasais, e desci ao patamar seguinte onde com toda a certeza me aguardava, provocadora, num dos seus «peace and love days», a Adelaide, dado que o neto viera tomar com ela um oportuno chá de «erva».

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Flagrante fotográfico: a gentil actriz da Warner, Angela Green, nas páginas de uma publicação especializada que encontrei no espólio de periódicos do meu saudoso avô. Défense de réproduction.

Bilhetes da vida comum. AS MAMAS.

Recolho-me ao leito tarde, já bem dentro da madrugada, pois aprecio sobremaneira o silêncio libertador da noite e é nessa quietude que me dedico aos escritos mais íntimos, interrompido embora, nestas introspectivas manifestações do meu pensamento, pelo ruído dos vizinhos quando baixam à sentina e procedem, não apenas aos eflúvios da Natureza, mas igualmente à descarga tempestuosa da água do autoclismo. Um ou outro cão ladra para a escuridão, é certo, mas não convivo, felizmente, com os desregramentos retóricos de bêbedos impenitentes que da rua declamam entontecidas odes à liberdade criadora e a praticam, umas vezes sós, outras vezes acompanhados, e quantas vezes espatifando sem pudor os bens públicos ou deixando nos passeios os resultados das suas tormentas digestivas. Violentíssima tempestade nos assolou a todos durante esta madrugada, apanágio do Inverno inclemente, que abriu com violência a porta da cozinha, já eu estava deitado e entretido com as elucubrações próprias, e bastante criativas, dizem-no os especialistas da saúde mental, que antecedem o sono. Ao mesmo tempo que a empedernida borrasca, com ventos cortantes e chuva desabrida, fustigava a cidade desprotegida e os seus habitantes indefesos, da parcela habitada pela minha jovem vizinha, chegavam à perscrutadora atenção dos meus sentidos, sons que indicavam particularidades de alguma espécie, umas vezes prazerosos, outras vezes entretecidos com alguma dor. Dada a circunstância da infernal borrasca, e de ter cedido a porta da minha cozinha, considerei adequado verificar se essa minha jovem vizinha – uma latagona na experiente loucura do início dos Quarenta, muito provavelmente ainda não tendo abandonado os Trinta – permanecia na segurança devida para a tranquilidade do sono. Vesti o pesado roupão que uso nesta época adversa e desci ao andar de baixo. «Diga lá o que quer senhor Júlio, é muito tarde.» (Prescindi do tratamento distanciador de «doutor» ou «professor» alguns dias após a latagona se ter mudado para o edifício, não movido pela tontura da intimidade, mas somente pela necessidade de uma pacífica vizinhança, entenda-se.) Teci algumas muito breves considerações sobre a violência da tempestade que a todos fustigava, referi até que quase me destruíra a porta da cozinha, e inquiri se se encontrava tranquila no sossego que se exige dentro do lar. «Sim, senhor Júlio, está tudo bem, vá lá sossegar… Até estou ocupada, se quer saber.» Insisti que verificasse as portas e as janelas, dado que a porta da minha cozinha tinha cedido aos Elementos em fúria. «Já verifiquei tudo, senhor Júlio, vá sossegar ou distrair-se com alguma coisa… Agradeço-lhe muito o seu cuidado, mas estou bem.» Compreendi que não estava só pois fechando um pouco a porta, a minha simpática vizinha, que vive só (mas não abandonada) respondeu a qualquer observação vinda de uma câmara interior com «Já vou, Adérito… não esmoreças, amor.» Algum amigo em dificuldades que procurara, em desespero, sabe-se lá por que agruras da vida, o ombro consolador desta simpática matulona, que já me haviam qualificado como uma «bênção da Natureza», pensei. Um particularíssimo drama se desenrolava, sabe-se lá até que limites devastadores, pelo que entendi que, estando verificado o sossego da minha consoladora vizinha, devia retirar-me. Prontificava-me a regressar à minha parcela particular quando um último agradecimento me alvejou: «É muito simpático da sua parte, senhor Júlio Bernardo, ter-se incomodado, com licença…». Afigurou-se-me necessário, então, corresponder a esta dolente simpatia, e oferecer uma desinteressada justificação. «Não incomodou nada, menina, permita-me que suba, dado que tinha em mãos As Mamas de Tirésias.» Não vou reproduzir a fraseologia caracterizadora, terrivelmente caracterizadora, da latagona, e limito-me a referir que hoje ainda não desci à rua.

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Imagem: uma ingénua colagem dos tempos de estudante do artista plástico Badalo Melena, colecção muito particular do Autor deste vazadouro particular. Défense de réproduction.